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terça-feira, 17 de julho de 2012

Crença

É impossível ser inteiro. 

Essa não é uma crença pessimista, tampouco desacreditada do bem que virá. A
credito que o impossível nos move a lutar pelos nossos desejos. Entende?

Ao longo da jornada nos doamos-entregamos buscando completude. Ou seja, perdemos parte do incompleto para conquistar a completude. 

Num 
devaneio de um dia normal percebi que
consigo ver minh'alma quando fixo os olhos no espelho. Olhando bem de perto notei que faltam alguns pedacinhos, pedacinhos estes que já nem sei se quero de volta.

Mas a rosa não perde a beleza por ter espinhos. Ah!... Foi bom. Foi bonito acreditar. E tudo o que um dia nos pertenceu, sem dúvidas, para sempre será nosso.

Não existe pessimismo em encarar a verdade.
Francesca Martins

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Meus olhos de ressaca

Se realmente existe essa estória de vidas passadas, tenho certeza que em algum lugar, num tempo distante, você leu as minhas mãos, bebeu as minhas lágrimas e lambeu as minhas feridas. Encerro a noite com as tuas palavras, meu querido Caio.



"E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário... por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo."

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Martírio solar

A luz queima.
Fogo sem chama.

Só lá fora.
Sol lá fora.

Martírio solar, por Francesca Martins e Rafael Maciel

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sussurro [25]

Para um grande amigo. Teu coração é um tesouro, Clemente
Sem motivos, esquiva você partiu. Te devo desculpas? Não sei. Só com o tempo percebi... Minha delicadeza nunca permitiu a tua sinceridade.

Francesca Martins

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A ansiedade de ser feliz

Caminhando na rua percebo ansiedade estampada no rosto das pessoas. É como se algo faltasse. Mas, o que falta? Olho para o céu e, ao ver o vôo tranqüilo de uma andorinha, percebo... Falta leveza, felicidade.

Onde está a felicidade? Quem guarda o segredo deste tesouro? É possível que exista pessoa que não deseje ser feliz?

No silêncio, no barulho, no corre-corre e engarrafamento da cidade, na calmaria do campo ouço: você precisa ser feliz! Seja feliz! Agora! Já!

Não adianta, somos pássaros de vôo pesado, estamos condicionados à correria, à comida rápida, às portas automáticas. E esse imediatismo faz com que, muitas vezes, a felicidade seja como uma tirana, e o nosso tempo o seu aguilhão.

A felicidade não padece de ansiedade e nem mesmo usa relógio.

Com uma calmaria invejável, a andorinha flutua no céu alaranjado. A pequena ave não se importa com o tempo e segue adiante com a leveza invisível do ar. Seria a leveza o segredo da felicidade?

A felicidade está na simplicidade das coisas, na leveza de um sorriso. Não se cobre tanto, não crie tantas expectativas e não espere a felicidade. Siga adiante e esqueça o tempo, as horas. Seja paciente como quem espera uma carta, não um e-mail. Respire fundo. De dentro para fora: desacelere. Não faça da felicidade seu algoz. 

Psiu, não conte a ninguém, mas um passarinho me confidenciou que, só consegue ser feliz quem se liberta da felicidade.
A ansiedade de ser feliz, de Francesca Martins.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ervilhas

Não sentia fome, mas devia sentar-se a mesa como mandava o costume. Instintivamente fitava o prato evitando o olhar inquisitivo da mulher. O silêncio vazio do matrimonio indesejado o atormentava todavia, calmamente, espetava com o garfo as ervilhas frias levando-as aos lábios rachados. Ervilhas frias. Frias como Emília. Ela era virgem, ele era homem, era seu dever, era o costume. Maldição. Não via mais o prato, via sua vida. Afinal, nunca havia sido homem suficiente para simplesmente brincar com a comida.

Ervilhas, de Francesca Martins.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O nome dele era Marcus

O nome dele era Marcus. Eu não costumo falar à ninguém sobre ele. Não mais. Não porque não lembre mais dele ou não sinta saudades, mas porque sinto que o encontrarei em breve e, no fundo, isso me dá medo.

Quando o céu vira breu, me visto de noite: vestido negro, saltos altos e olhos pintados. Não sou supersticiosa, mas sempre acreditei que pintar os olhos é fechar a alma. Então, de corpo e alma fechados, enfrento o medo e volto ao lugar onde tudo começou.

Nitidamente ainda vejo a porta se abrir, o modo como Marcus entrava nesse bar e como seus olhos de topázio dourado vinham direto para mim. Ele, com aquele jeito felino, me olhava nos olhos, sentava ao meu lado, tragava do meu cigarro, bebia do meu copo, pegava na minha mão e, encostando sua coxa quente na minha, dizia: vem comigo. 

O sangue ferve e eu estremeço lembrando da sensação. É um misto de desejo, alucinação e medo. Você é a razão de existir música em mim, dizia-me ele. E é por isso que venho aqui, para ouvir a música. Então peço outra dose, acendo mais um cigarro e olho para a porta esperando ele vir me buscar.

A porta prende o meu olhar. Estranho. Hoje tudo parece diferente. Devo estar embriagada. Fico entretida, perdida em pensamentos, até que alguém toca minha mão e me convida para dançar. Faz tanto tempo que eu não danço. Por que não? Pensei. Com um sorriso nos lábios pintados de carmim, levanto-me da cadeira e me deixo guiar pelo estranho até o meio do salão. Tudo se move tão rápido e eu não consigo ver o seu rosto.

Como é bom dançar. Por alguns instantes eu sou a música, transpirando melodia pelos poros, acordes em movimentos suaves, intensos. Marcus dançava tão bem. O estranho sem rosto me conduz e deixo-me levar pelo embalo suave. Sinto seus lábios tocarem minha testa e passearem pelo meu rosto. Seu hálito queima minha bochecha e eu queimo por dentro. Meu corpo o deseja e aos poucos eu me rendo. Em um movimento rápido, o estranho enlaça a minha cintura apertando-me contra seu peito e, colando sua boca no meu ouvido, sussurra: vem comigo. Estremeço.

Uma vertigem intensa me abate e o salão gira à minha volta. Suas mãos me apóiam segurando minha cintura. Aquela voz doce, forte... Marcus?! Entre lágrimas e embriaguez esforço-me para conseguir enxergar seu rosto. Marcus? Suspirei atemorizada afastando-me. Todos dançavam sem se dar conta do ocorrido, enquanto nós permanecíamos inertes no meio do salão. Vem comigo, ele repetiu estendendo-me a mão.

Minha visão embaçada por lágrimas não permitia ver o seu rosto. Poderia deixar-me guiar cegamente? Com visão turva e passos trôpegos caminhei em sua direção. Seria este o princípio ou o fim? Ainda incerta segurei a sua mão e caminhamos até a porta. Aquela abertura, um simples movimento daquele pedaço de madeira e meu destino estaria selado. Vem comigo? Ele indagou segurando minhas mãos entre as suas. Assenti com um gesto e abrimos a porta. Você é a razão de existir música em mim, sussurrei em silêncio.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sussurro [24]


Ouço o leve farfalhar de tule, sussurros perfumados de jasmim. Entre juras secretas e amores perdidos, entre ensaios e improvisos, a pequena bailarina dança no silêncio.

Francesca Martins.

domingo, 6 de novembro de 2011

Sussurro [23]


O olhar dela está vazio e no fundo ela sabe que este é um jogo perdido. Sua alma sedenta procura por amor nos lugares errados...
Francesca Martins.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sussurro [23]

A ternura que havia no olhar dele era perturbadora. Ela queria fugir. Ele queria amar.
Francesca Martins.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sussurro [22]

Noite adentro, escuridão por fora. O cigarro acaba, finda a paciência e eu já nem sei as horas. A insaciedade me devora...

Francesca Martins.

domingo, 16 de outubro de 2011

Solitária

Há histórias que nunca deveriam ser contadas ou mesmo lembradas. Mas existem coisas que a alma não esquece e o ato de escrever tais coisas é como despir a alma. Enquanto escrevo me percebo nu, despido aos olhos do desconhecido.

Foi em uma sexta-feira louca, de álcool e fumaça branca que te vi sentada em um canto escuro do café. Te vi e mergulhei em ti, pensando que você, como desconhecida sem nome, não me traria dores. Engano.

Ainda recordo a tua imagem, moça de aura doce, taça de vinho entre as mãos, solitária de olhos tristes. Acomodei-me na cadeira e por alguns instantes viajei em especulações, até o teu olhar encontrar o meu.

Você me fitou intensamente e como um náufrago, perdido na escuridão da noite, fiz de você ilha e abrigo. Busquei desesperadamente ler a tua alma, tentando encontrar a lâmpada do teu espírito.

Nos prendemos e suspensos no tempo deixamos transbordar o desejo de completude. Minha sede era imensa, saciei-me em tua alma e te amei naquele instante. Todavia, teu coração não estava pronto.

Delicadamente, desviando o olhar do meu, você retirou do bolso do casaco uma aliança e colocou no dedo anular. Teu coração pertencia a outro. Sem me olhar nos olhos pagou a conta e se foi, deixando a taça intocada. Meu olhar ainda busca o teu.
"Solitária", de Francesca Martins.

sábado, 15 de outubro de 2011

Meu coração te vê



Quando os meus olhos não vêem, o meu coração sente.
Francesca Martins.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sussurro [21]

Nada é como deveria ser. Eu não sou eu. Você não é você. E a luz que alumia não é da lua, é do poste. Falsa luz!
Francesca Martins.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sussurro [20]

Madrugada fria. Cama vazia. Escuridão muda. Sede... Sede da tua sede.
Francesca Martins.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sussurro [19]

Desejo o teu desejo.
Francesca Martins.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sussurro [18]

A boca são os olhos e nosso diálogo jamais é silencioso. Quero saber teu nome, mas emudeço diante da tua timidez.
Francesca Martins.

Nudez

Eu fervo por fora, 
eu fervo por dentro.

O som da voz preenche o silêncio, 

os cantos do quarto, a casa.

A palavra revela a nudez, 

o sangue fervendo.

Sou carne e alma.

"Nudez", de Francesca Martins.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sussurro [17]

Tempo. Tic. Escravos. Tac!...
É o tempo e seus aguilhões.
Francesca Martins.

domingo, 31 de julho de 2011

Sussurro [16]

O amor vai perecendo entre prantos e verdades.
Francesca Martins.